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REFLEXÕES DE 1º KYU
Por: CRISTIANE DALLA SANTA, publicada em 02/12/2009
Reflexões de 1º kyu Cristiane Dalla Santa
Manter a mente de principiante deve ser um constante exercício! E, como diz a Sensei Bete, em outras palavras, exercitar a mente de principiante significa, realmente, estar vivo (e olha que tem muitos “vivos” mortos por aí!).
O Sensei Maruyama faz questão de fixar esse princípio. Apresenta finalizações, saídas e ataques diferentes, ou seja, faz questão de variar. E faz isso com frequência, impedindo que a zona de conforto se estabeleça! Sensei Maruyama não quer conforto! Afinal, a especial capacidade de adaptação do ser humano necessita ser exercitada para que seja incorporada e aí aplicada normalmente, sem (muitas) relutâncias! Percebo que é difícil não reclamar, perguntar-se por que modificar, enfim, é fácil manifestar resistência ao novo.No entanto, a mente de principiante quer aprender! Fascina-se com o novo. Ressignifica. E, ao invés de logo sair julgando, primeiro quer conhecer.
Ao início e ao final do treino, respeitosamente, nos curvamos em reverência ao O Sensei. No início da aula, me apresento com sentimentos como abertura, prontidão. Ao final, gratidão. O Sensei mostrou um caminho a ser seguido. Muitos seguiram seus ensinamentos e, por esse motivo, é possível que pratiquemos hoje. Ao mesmo tempo em que praticamos e persistimos no caminho, outros vão chegando. E assim o caminho vai sendo marcado, ampliado.
Meu primeiro treino.... Eu estava nervosa. Eu achei que não teria fôlego para chegar ao fim da aula. Tive dificuldades em fazer os tai-sabaki. E fiquei tonta nos rolamentos. Lembro que todos esperavam eu rolar (porque já tinham rolado) e eu achava que eles estavam perdendo o tempo deles tendo que me esperar. Achei tudo muito complicado e demorei um bom tempo para perceber que os outros não se importavam com os MEUS “erros”. E que, na verdade, não eram erros, mas fatos normais que se passam a quaisquer aprendizes. Quando passamos a pensar em nós mesmos e deixamos de lado o que os outros irão pensar ou dizer, a prática começa a ganhar sentido.
Sempre dizemos que o mundo está carente de modelos benéficos. É em casa, é na política, é no grupo de amigos, é na mídia... parece estar na moda apreciar modelos vazios, considerar normais situações que não seriam... é saber das capacidades de cada um e ver o mau emprego delas. E agora, seria a minha vez? Aí fiquei pensando... Se até a “fé sem obras é morta”, o que move um modelo são ações. Sem querer, no Aikido, esse modelo vai sendo construído desde o início e está em constante transformação.A Sensei Bete sempre fez questão de que a figura Sensei não passasse a ser sinônimo de idolatria e sentimentos do gênero. Ao invés disso, gosta da humildade, gosta de evidenciar fatores humanos (acertar, errar, sentir...), de construção (a pessoa como um eterno ESTAR ASSIM, não imutável: SER ASSIM). Interiormente, não gosto da maneira “deslumbrada” com que possam me ver. Na verdade, cria um peso. Um sentimento de: “eu sou igual a você. Olhe para você!”, ou ainda: “posso decepcionar-lhe facilmente”.
Nage executa uma técnica e uke a recebe.Essa relação, no Aikido, não representa atividade e passividade. O que ocorre, na verdade, é um diálogo corporal. Para que um diálogo possa ocorrer efetivamente, faz-se necessário saber quando falar e quando escutar. Se os dois tentam falar ao mesmo tempo, a comunicação passará por problemas. Se um falar e o outro não escutar, haverá problema. Se um fala demais, o outro cansa-se de escutar. E assim por diante. A conexão de um movimento exige esforço tanto do nage quanto do uke. Ambos necessitam saber quando falar e quando escutar. E uma conversa não é feita de diálogos decorados. É preciso estar atento: a si próprio, ao ambiente e ao outro.Fatores que cortam a conexão em movimentos: falta de fluidez, uso de força (criando retração do uke), indecisão (falta de direcionamento, projeções “sem firmeza”...), fuga dos princípios do Aikido (falta de desequilíbrio, abertura das zonas vitais, falta de centro, de postura), falta de confiança e entrega, desrespeito às capacidades individuais.
Perdoar/esquecer faz com que nossa mente fique livre de sentimentos ruins. Perdoar/esquecer é uma ação que demonstra superioridade. É deixar a mente livre de ressentimentos e de pensamentos ruins. É exercitar a compreensão. É acreditar na mudança, no desenvolvimento do outro.
A grande parte dos Lemas do Aikido trata de sentimentos: não se enervar, não se entristecer, não possuir sentimento hostil, ser compreensivo, ser tranquilo, ser pacífico, manter a ética, fazer amizade com todos, respeitar as pessoas... e... se Aikido é o caminho da paz, o caminho do Amor... a Paz não tem inquietude, o Amor não tem rancor.
As reverências são dotadas de sentimentos profundos. Reverenciar curvando-se não representa humilhação, tampouco rebaixamento, opressão. O Aikido é uma arte japonesa e muitos costumes e convenções são mantidos. O curvar-se dos japoneses é o aperto de mãos dos ocidentais. Ao realizar uma reverência curvando-se, está-se expressando gratidão e respeito.Nas práticas de Aikido, reverenciamos O Sensei (o Dojo), o sensei e os colegas. ‘Por favor’ e ‘obrigado’ são exercitados ao mesmo tempo em que a reverência é feita. A reverência beneficia a educação, marca a importância do outro e a de si: “Por tradição, nós fazemos uma reverência no início de cada sessão de treinamento do Aikido. Nós nos curvamos em reconhecimento à nossa vontade de aprender mais sobre nós mesmos. O treinamento da não-resistência evoca o mistério de quem nós realmente somos no nível mais profundo.” (Aikido em três lições simples, pág. 53).
Nesse ano, necessitei realizar uma cirurgia e me ausentar das práticas por um mês.Lembro que, depois de sair do hospital, chegado em casa, encontrei a caixa de entrada de meu celular com muitas mensagens. E, ao longo dos dias em que fiquei afastada, sempre alguém do dojo enviava um recadinho. Abri os e-mails e encontrei mais mensagens. Recebi a visita da Sensei, a visita de colega. Foi muito interessante como, cada um, de seu jeito, demonstrou sensibilidade. Independente de graduação.Nesse momento de fragilidade, fiquei e ainda fico emocionada ao relembrar. Foi uma forma de concretizar uma das frases de O Sensei: “Aiki não é uma técnica para lutar com ou derrotar o inimigo. É o caminho para reconciliar o mundo e fazer dos seres humanos uma só família.”
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